terça-feira, janeiro 31, 2006

Classe Média


Finalmente disseram um para o outro que a situação estava insuportável. Aquela história de que o cotidiano destruía as relações era tudo verdade – reconheceram. Não somos mais um casal! – ela falava; ele, em silêncio. Não há mais cumplicidade! – ela falava; ele, em silêncio. Você é indiferente! – ela falava; ele em silêncio. Vivemos uma vida burocrática! – ela falava; ele, em silêncio. João Alfredo, nós não transamos mais! – ela silenciou então. Ma-ria-Ri-ta, fa-le-bai-xo – ele falou.

Depois de algum tempo calados, concordaram que deveriam se separar. Acertaram assim a mudança. Ela acordaria às sete; ele, às oito. Ela almoçaria às onze; ele, às doze. Ela dormiria às vinte e duas; ele, às vinte e três.

Foi tudo verdade. Aconteceu no apartamento trezentos e três, bloco seis, do condomínio Parque dos Sonhos.

Desculpe-me, foi engano


Procurou as chaves da porta de entrada em todos os bolsos. Tivera a impressão de quase tê-las em suas mãos, mas foi tudo falsa impressão. Puxou chaves dos bolsos, da mochila que carregava, e nada se mostrava familiar. Pensou inconformado como ele havia caído em tal situação. Não esquecia facilmente as coisas. Sua memória, apesar dos contratempos da jornada, havia sinalizado que com ele estava a chave do apartamento. No entanto, a imaginação se passando por memória havia lhe dado uma rasteira mais uma vez. Talvez essa confusão fosse comum nos que viajam por muito tempo, já por longa distância, assistindo a paisagens monótonas. Sentindo-se um estranho diante de uma porta fechada, questionou-se ainda se não batera em local errado, olhando – decepcionado – o número correto do apartamento. Desceu as escadas meio incerto, vacilante, em direção à saída do condomínio. Lá fora, viu as ruas com carros indo e vindo, pessoas na parada de ônibus; até um avião passou por sua cabeça naquele momento.

segunda-feira, janeiro 30, 2006

História Natural


O cara era limpo, tão limpo que se levantava para ir ao banheiro peidar. Lembro-me de que, num domingo, antes dele me acordar com um beijo -- ele sempre me acordava com um beijo aos domingos -- descobri que ele tinha o cuidado de passar o fio dental e escovar os dentes. O cara era limpo. E agora queria casar comigo. Porra! Toda mulher gostaria disso, mas eu não estava assim tão feliz. Sinopse desse filme: após três anos de casados, eles têm filhos; agora torcem para que seus filhos cresçam e casem para terem filhos também. A vida passa num daqueles canais de documentários sobre bichos. É o dia-a-dia dos gorilas da montanha, lá no Congo.

Depois, aceitei.

sábado, janeiro 28, 2006

Buffalo Soldier


O negro olhou para mim e disse que me carregaria. Era um sujeito calado. Não reclamava, mas também não poderia dizer que se tratava de homem festivo. Numa outra patrulha, em meados de dezembro, preparando minha mochila, um dos garotos se aproximou e disse que achava o negro um cara meio estranho: vê, ele parece desconfiado – sussurrou baixinho na minha direção. Eu me lembro bem disso. Em dezembro todo mundo ficava mais paranóico ainda. Não saberia lhe dizer o que de fato acontecia, mas sempre me vinha a idéia de que ninguém queria ser pego para Cristo – claro, nunca falei para ninguém sobre essa piada estúpida. O negro, no entanto, não me passava desconfiança, a impressão era mais de cautela. De qualquer forma, quando se é negro por aqui, ser desconfiado me parece um reflexo normal.

A situação estava péssima para todos. Para mim, ainda mais. Sofremos uma emboscada, mataram nosso oficial e eu havia sido seriamente ferido nas pernas. Não havia liderança. Todo mundo fazia cara de tudo-sob-controle, mas eu sentia um cheiro de desorientação no ar. Uns perguntavam aos outros qual era a idéia. Nesses momentos a gente fica ponderando sobre a melhor proposta, procurando saber se por ali vai dar para salvar a própria pele. Porém, hora acreditava-se em tudo, hora nada parecia viável. Até que um deles disse que à noite sairia por uma vereda que para muitos não daria em lugar algum.

Não falei nada. Simplesmente balancei a cabeça agradecendo. Não entendi por que aquele negro resolvera levar consigo um peso quase morto.

quinta-feira, janeiro 26, 2006

Vida Urbana

Rua suja, muro pichado, poste com luz amarela. Está um deserto a essa hora. Não tem gente, não tem carro. E se tivesse? É tudo deserto da mesma forma, sabe. Passam dois ou três malandros, me encaram; me dá um teco, assim, só pra mostrar que ele pode mudar as coisas, que ele vai produzir notícia; vai abrir o jornal e sentir que ele também sabe fazer história. E logo pra cima de mim. Estou dando bobeira esperando esse ônibus. Melhor ir a pé.

Como fazer uma pipa

Abriu a porteira do sítio. Há muito tempo não ia por lá. Aquele local era guardado em suas memórias de criança. Surpreendeu-se com um jardim bem cuidado e uma casa bem conservada. Não que tudo estivesse igual aos tempos de criança, intacto, coberto com lençóis brancos. O velho Salomão mexia em tudo; podava as plantas, plantava outras, consertava a cerca velha, fazia um novo banquinho para as visitas. Ali, em cada coisa percebia-se o tempo sendo refeito. Que neto que fui, deveria ter vindo por aqui mais vezes – lamentou-se. Seguiu casa adentro em direção ao quarto principal. Prometera a sua mãe pegar os objetos mais íntimos. Encontrou o tal relógio antigo ao lado da cama, em cima do criado mudo. Os óculos repousavam numa prateleira ao lado de um livro de como cultivar rosas comestíveis. Esse Salomão sempre com novidades – pensou. Depois pegou o chapéu surrado que estava sobre a escrivaninha e o pôs na cabeça. Um caderno de notas se revelou. Andava escondido, a primeira vista, pelo chapéu. Com uma capa de couro, parecia guarda coisas importantes. Folheando rapidamente, viu anotações de dicas sobre os afazeres diários, tudo bem organizado. No entanto, a primeira página daquela espécie de manual descrevia o que ele achou mais engraçado, senão o mais curioso. Intitulava-se “Como fazer uma pipa”. Estavam lá todos os passos para se ter uma pipa dessas que a meninada solta na rua. “Use varetas flexíveis; o papel dever ser leve, mas resistente, de preferência, com cores vivas; e lembre-se de que para que a pipa voe estável é preciso que você faça pequenos laços de pano, vários deles, por toda a rabiola” – finalizava a descrição com esse lembrete importante.

quarta-feira, janeiro 25, 2006

Rosa dos Ventos

Tudo bem. Estou num mato sem cachorro -- usando as palavras dos antigos. Sem aquele melhor amigo do homem com um focinho especializado em achar o que nos é invisivel. Nesses tempos de tecnologia de ponta poderia eu dizer também, sem incorrer em exageros, que estou mesmo é no deserto sem GPS. Olhar para o céu e perguntar às estrelas para onde ir me parece ridículo. Afinal isso é coisa de selvagem, e a civilização me trouxe até aqui, dando-me as boas vindas ao nada. Disse que para sair desse buraco só com um quatro por quatro e um GPS. Que saudade do velho cão. Saudade de olhar para as estrelas com admiração. Mas o que eu desejo mesmo é um guarda-sol e um copo de limonada bem gelada. Só tenho medo à noite de fantasmas do passado que se projetam em minha frente como um filme repetido mil vezes. Ou de miragens que aparecem ao meio dia, quando nossos miolos fervem de tanta imaginação. Lembrem-se, meus caros, que tudo parece que nos aconteceu ontem, como se andássemos num circulo do tamanho de nossos umbigos.

Sobre jardins

Merdas acontecem -- sem dúvida é a grande máxima de nossos tempos. Em algum momento da sua vida ela virá. Não estou falando de uma merda específica, uma merda universal, como se fosse a grande merda das escrituras sagradas. Definitivamente, não. "Merdas acontecem" é um conceito abstrato que se concretiza para cada pessoa de maneira singular. Vai desde a simples derrota num concurso qualquer até a morte de um ente querido. Talvez, o que parece pequeno -- não passar num concurso qualquer -- seja a cereja do bolo gigantesco de merda; outras vezes, esse bolo, por inteiro e de repente, implacável, com cereja e tudo, cai em nossas cabeças -- a morte de um ente querido. Tudo porém nos liquida. Nosso caixão é arriado até o fundo da cova e fica lá, apodrecendo a céu aberto, esperando ser coberto por terra, mas o coveiro não vem, não sela essa história inacabada. No entanto, penso que o inverno que conservava a merda como se fosse um fóssil pré-histórico se vai, dando lugar ao sol, que secará essa merda até torná-la adubo para um novo jardim.

Primavera

Ela pediu um café. Ele preferiu uma cerveja cujo nome não conseguiu pronunciar, apenas apontou para o cardápio; gesto que logo foi compreendido pelo garçom. O dia estava claro, cheio de cores. A primavera na Europa era sem igual. As mesas estavam todas ocupadas como sempre acontecia naquela época. Viam-se alguns casais como eles. Havia também grupos familiares. Alguns senhores lhe chamaram a atenção. Devem estar gozando a aposentadoria depois de se separarem de suas mulheres - pensou por um instante. Em sua maioria turistas; dava-se para deduzir. O casal de agora a pouco conversava frente a frente, sereno. Ele comentou o quão agradável estava sendo aquele momento. A moça, cúmplice, sorriu. Quando morremos não há céu nem inferno, escolhemos um momento feliz e o eternizamos - comentou, observando lentamente ao seu redor. Seria uma boa idéia - ela disse, levantando-se e pedindo licença para ir ao toalete. A meio caminho, um barulho a assustou. O vestido da senhora sentada atrás do homem da cerveja tingiu-se de vermelho do sangue espirrado. A primavera européia tornou-se ainda mais colorida.

Amor

Depois de um dia inteiro de caminhada precisou parar. Estava cansado. Aparentemente não apresentava ferimentos. No entanto, era possível perceber um certo abalo emocional. Confuso e exausto, sentou-se junto a uma árvore que o protegia das rajadas de vento frio. O inverno só piorava as coisas. Questionou-se se havia tomado a decisão certa. Se ficar junto aos destroços, quietinho, não teria sido a melhor opção. Deus, eu jamais conseguiria ficar parado ali sem fazer nada, esquecido - pensou. Adormeceu apesar das incertezas. Resistira ainda um pouco com a dúvida de que direção tomar a partir dali, mas, finalmente, adormeceu. Em sua cama quentinha dormia tranqüilo. O sol da manhã iluminava suavemente o quarto, anunciando mais um dia a ser vivido. Sua mulher antes de sair lhe deu um beijo suave na face. Ele acordou ainda sentindo o vento gelado da floresta. Olhou ao seu redor as várias veredas, mas, estranhamente, sentia-se cheio de esperança.

Angústia

Ainda de madrugada, às quatro horas da manhã, acordou. Havia tido um sonho. Lá estava ele sedento junto a uma fonte d'água, ao seu lado estava seu escritor predileto. Não conseguia beber da fonte. Parecia desajeitado. O escritor o observava. Sentou-se em sua cadeira e ligou a luz da escrivaninha. Continuava sedento. Não conseguia pensar noutra coisa que não fosse tomar uns tragos. A idéia de passar o dia inteiro de cara limpa o amedrontava. Se pelo menos ele pudesse dormir profundo e acordar ao meio dia, restaria apenas a outra metade para suportar. Ele estava de olhos arregalados, alerta, sendo bombardeado pelo passado e pelo futuro, e, para ele, beber alguma coisa lhe traria a paz. Deitou-se novamente na cama. Era um homem forte, fisicamente saudável, mas que se contorcia de um lado para o outro como se procurasse um local livre de dor. Ainda assim caiu no sono que o tirou daquele pesadelo.

Saudade

Levantou-se, pôs os chinelos e foi ao banheiro. Olhando-se no espelho, coçou a careca e deu uns tapinhas na cara. Voltou para o quarto andando a meio passo. Já em frente à cama de casal disse para Marta se levantar - é hora do café, mulher -, e continuou meio trêmulo indo em direção à cozinha. Colocou a água na chaleira e a pôs no fogo, sentando-se em seguida à mesa. Marta? Marta? - repetiu o nome da mulher com estranheza. Foi verificar o que havia acontecido para que sua esposa demorasse tanto a sair. Ligou a luz do quarto; a cama estava vazia. Fitou o banheiro; não havia ninguém. Marta? Marta? Marta? - repetia sôfrego em todas as direções. Pegou o telefone e discou desajeitado o número da primeira página do bloco de notas ao lado. Meu filho, meu filho, onde está sua mãe? Ela não dormiu em casa. Calma, pai, calma, pai - a voz do outro lado tentava acalmar o velho. Fez-se, então, um silêncio. Pai - disse. Sim, meu filho. A mãe foi enterrada na semana passada.

Esperança

Perguntou se ainda estava viva. Há um mês a mulher deitada na cama era uma incógnita. Não sabiam aqueles caipiras. O pai decidiu esperar o médico do município que mensalmente os visitava. Hoje é o dia do doutor - falou o pai para os filhos. Mas a mãe está viva? - perguntou o mais novo. O doutor dirá. O mais velho nada perguntou ou comentou, abaixou a vista em silêncio. No meio da manhã, chegou o médico na Rural da prefeitura. Entrou no sobrado, deu bom dia e comentou o mau cheiro. O homem abriu a porta do quarto e mostrou a mulher deitada na cama como há um mês atrás. O médio aproximou-se da mulher com um lenço cobrindo o nariz e a boca, afastando devagar o lençol que a cobria. Esta mulher está morta, senhor. O homem chamou o mais velho; lhe disse para que fosse pegar madeira - temos que preparar o caixão de sua mãe, precisamos enterrá-la. Depois gritou pelo mais novo, que apareceu apreensivo. Sua mãe está morta. O menino saiu engolindo o choro, inconformado.

Mudança

Estou de mudança pra cá. O Weblogger simplesmente não funciona. Tenho que trazer minha tralha de lá pra cá, ora pois pois.