domingo, fevereiro 19, 2006

Teatro

Como você foi no teste? – ele perguntou antes de qualquer coisa. Não fui bem, fiquei nervosa, e você sabe que atuar com nervosismo é estar na platéia, assistindo ao que lhe parece um drama pessoal. Mas você conseguiu algum papel?, os outros também devem ter ficado nervosos – essa espécie de esperança a deixava mal. Não, não consegui papel algum – respondeu triste. E agora? Não sei. Não há outros espetáculos? Todas as peças já escolheram seus atores, essa era a última das boas peças que ainda estava formando seu elenco, agora só na próxima temporada. Você tem de continuar tentando. Eu sei, mas não tenho a convicção do início.

Ela segurou a mão dele. Os dois seguiram para o terminal rodoviário. Ela sem um papel e com uma convicção pendente

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Meio

É o caminho do meio, é a classe média, é a meia idade, é a metade do comprimido, é a metade do quarto, é o meio de sobrevivência, pelamor de Deus!

E eu querendo estar inteiro em todas as coisas.

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Adorável Saramago


(...) Quando, de manhã, Baltasar acordou, viu Blimunda deitada ao seu lado, a comer pão, de olhos fechados. Só os abriu, cinzentos àquela hora, depois de ter acabado de comer, e disse, Nunca te olharei por dentro.

(...) Lembras-te da primeira vez que dormiste comigo, teres dito que te olhei por dentro, Lembro-me, Não sabias o que estavas a dizer, nem soubeste o que estavas a ouvir quando eu te disse que nunca te olharia por dentro. Baltasar não teve tempo de responder, ainda procurava o sentido das palavras, e outras já se ouviam no quarto, incríveis, Eu posso olhar por dentro das pessoas.
(Memorial do Convento, Saramago)

Adorável Clichê

Eu gostava dele. Gostava de suas frases inusitadas, de seu beijo sem início, meio e fim, da forma charmosa que ele tinha de sofrer. Às vezes ele me assustava. Um urso adulto, mesmo o tendo como amigo, causa-lhe no mínimo um frio na barriga. Quando toda aquela massa densa me encarava, parecia ter a noção que poderia me atropelar, me partir ao meio, mas então ele me vinha com o que principalmente gostava nele -- um de seus adoráveis clichês.

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

História Natural


Apontando a arma para minha cabeça, disse-me que eu tinha um minuto para acertar a senha do banco e tirar a grana. Normalmente, senha de banco é algo que corre nas veias. Sua data de aniversário, da sua mulher, dos seus filhos ou qualquer seqüência de seis números que nem o maior dos porres o faria titubear. Eu era um cara estranho, sabe; dividia o ano de nascimento de minha mulher pelo seu dia e depois multiplicava pelo seu mês acrescido de nove -- a maldita senha vinha dos seis primeiros dígitos mais significativos do resultado dessas operações. Com um marginal nervoso, sacudindo uma arma de fogo na minha cabeça, nunca foi tão difícil dividir e multiplicar em exíguos sessenta segundos. Naquele instante fiz uma viagem na escala evolutiva de retorno à caverna. Eu me sentia o elo perdido entre o homem e o macaco, tentando multiplicar e dividir números, com uma pistola nervosa ao meu lado fazendo tiquetaque, tiquetaque...

Para resumir sua vida em um minuto é simples. Pense apenas nos fatos relevantes, ou seja, naqueles quem lhe têm o bem-querer.

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Tempo

Quanto tempo levaria para se cruzar quarenta anos? Quantas tristezas?, quantas alegrias?, quantos fatos inéditos? Pergunto-me de quantas maneiras ainda vão se contar as mesmas histórias. Quarenta anos de piruetas, rodando, rodando, rodando... Céus! No início, é gostoso, engraçado, infantil. Depois, tenho que comprar tíquetes para o mesmo. Me deixam esperando na fila da próxima volta. Com nada pra fazer, só me resta contar a !bosta! deste tempo em unidades de nunca visto... vale qualquer coisa... hum... tédio.

O abraço de minha mulher me faz querer tê-lo naquele instante eterno. E esse cigarro? quantos desses me fariam morrer?

Destroço


A cabeça fica branca, as rugas todas de uma vez surgem, os músculos enfraquecem e os ossos doem. Ai, ai... como esses meus ossos doem. Ao redor, ainda um monte de bagunça (mess!) . Isso aqui vai demorar mais uns cinco séculos para voltar ao lugar; não tenho tantas vidas. O tempo que me resta não conserta os cabelos brancos, essas rugas, músculos fracos, a dor que vem do tutano. Os ventos sopram e nada os fará mudar de opinião.

sábado, fevereiro 04, 2006

Hoje não é dia de batata

Recebera a nóticia por telefone. Sim, eles estavam no avião -- sua irmã ainda consternada confirmou o que antes era receio. Você nunca espera participar de uma dessas histórias trágicas que garantem os empregos dos jornalistas. Depois você percebe que todos fazem parte do elenco, e a vida e suas tragédias têm de continuar. Sempre chega o momento em que você sente que foi escolhido para ficar na fila da câmara de gás; ao longe você observa os que continuaram comendo batatas. Batatas... elas parecem gostosas daqui -- seriam esses seus pensamentos(?).

Vive agora num albergue, empoleirado no que chamam de triliche. Suas economias não lhe dão o luxo de um quarto. Divide-se entre os estudos e sua mulher. Ah, sua mulher é a parte boa dessa história. Claro, ninguém é de ferro. Sempre que ela saía, ele se sentia sem casa. Ei, não pense que isso aqui é um romance com direito a bolo enfeitado com bolinhas e estrelinhas cor de rosa. Neste bote cada um delira como bem entende. Outro dia um parceiro com os olhos arregalados me cutucou dizendo ter ouvido que a única saída seria pela chaminé. O cara estava mal, mas eu sabia que ele logo sairia daquele filme.

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Mundo Animal


O roedor se empanturra durante os meses que antecedem o inverno. Come obcecadamente como se fosse ao banco depositar suas economias na esperança do futuro milhão. Faz uma toca debaixo da terra. Já não há muito tempo, os ventos gelados anunciam. Sai mais uma vez para comer mais um pouco. O roedor gordinho não tem fome, preocupa-se com os ventos que lhe acertam de repente.

O inverno se instala. O roedor dorme profundo. Ficará assim por todo esse período gélido. Torce para que a gordura seja suficiente. Às vezes, tem ataques de tremedeiras. O frio é mais intenso do que aqueles dos seus planos. E muitos deles morrem, transformando suas tocas em túmulos. Não preciso dizer que essa é uma estratégia de sobrevivência radical.