segunda-feira, março 27, 2006

La petit morte

A velha acorda muito cedo. Mas já está claro. O galo, lá fora, canta com todo vigor. Lentamente, ela se senta na beira da cama. Parece ainda dormir. Seus olhos vão aos poucos se aconstumando com a claridade. Estende o braço, alcançando a dentadura submersa. Tateia o chão com a ponta dos pés, sabe que os chinelos estão próximos. Calça-os, levantado-se para, num passo arrastado, dirigir-se ao banheiro.

A meio caminho, hesita. Só agora percebeu o marido ainda deitado. O velho sempre madrugou. Vê-lo alí era cena desconhecida. Aproximou-se. Depois curvou-se até colar o ouvido no peito de seu companheiro. Inexplicavelmente, fez tudo sem dar uma palavra. Dentro daquele corpo, o silêncio se instalara, e pronto.

Voltou para o seu lado da cama, sentando-se novamente. Tomou o remédio para pressão, permanecendo quieta, passando as contas do rosário com olhar distante.

"Há que se dar a volta"

O confronto entre a realidade objetiva e a realidade imaginária, vislumbrada, construída pelas nossas estruturas mentais, descansando em nossos conceitos, equilibrando-se em nossa imaginação perna-de-pau quase sempre reclama esmeril. Vê as centelhas? O barulho-berro? É a ação do desgaste abrupto.

Do encontro entre o sólido e o abstrato surge qualquer coisa. Nem sempre bom, nem sempre ruim. É a sintese-verdade dos que estão por aí dando voltas.