La petit morte
A velha acorda muito cedo. Mas já está claro. O galo, lá fora, canta com todo vigor. Lentamente, ela se senta na beira da cama. Parece ainda dormir. Seus olhos vão aos poucos se aconstumando com a claridade. Estende o braço, alcançando a dentadura submersa. Tateia o chão com a ponta dos pés, sabe que os chinelos estão próximos. Calça-os, levantado-se para, num passo arrastado, dirigir-se ao banheiro.
A meio caminho, hesita. Só agora percebeu o marido ainda deitado. O velho sempre madrugou. Vê-lo alí era cena desconhecida. Aproximou-se. Depois curvou-se até colar o ouvido no peito de seu companheiro. Inexplicavelmente, fez tudo sem dar uma palavra. Dentro daquele corpo, o silêncio se instalara, e pronto.
Voltou para o seu lado da cama, sentando-se novamente. Tomou o remédio para pressão, permanecendo quieta, passando as contas do rosário com olhar distante.

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