O que mais existe senão o instantâneo!
Todo o resto é medo.
Sabe quando você vai tirar uma foto com uma daquelas máquinas antigas em que você faz uma série de ajustes para registrar aquela imagem a partir do seu olhar particular? Então, tento fazer isso usando pequenas histórias como instantâneos da realidade.
O texto chegou todo modificado, com várias partes reescritas, cortes ao longo de todo o trabalho. “Chega!”, ele pensou. Não dava mais pra ele. Não se sentia produtivo. Não se identificava em nada com aquele resultado.
Ele sabia que ia morrer. Eu também. Fiquei ali escutando suas palavras sobre Deus e todas as suas respostas. Isso o confortava. Me confortava saber que Deus o confortava. Balançando a cabeça ia concordando com o que ele me dizia. Sabia que Deus não existia, mas jamais revelaria tal sensatez. Não estamos preparados para morte… tampouco para vida. Ao longo da vida no entanto temos um lapso de consciência que nos faz assistir a própria condição. Na morte, nessa reorganização da matéria, nada nos dá pista disso.
Quiseram me vender um sarcófago. Seria um sinal? Jogar tudo isso nalgo que fosse corroendo o que não tem mais vida. Deixo pra lá. Não gasto mais um vintém no que não consiga me deixar menos morto. No final, inevitável: tudo fica mais chato. Volto aos entorpecentes. Volto a escrever.
No meio do tempo, no meio do espaço, me atravessa uma inspiração. Algo despoluído. Uma impressão que parece livre; mas nada é livre, eu sei, eu sei... Os pensamentos são dominós e não sei quem começou tudo. Os personagens nascem e morrem num segundo. Como capturá-los? Fantasmas. Deixei de acreditar. O escuro do apartamento vazio não me amedronta. Durmo com os pés para fora da cama; nada irá agarrá-los. Nada.
Um velho cão não sabe ser outra coisa. Só sabe ser cão. Dos velhos, por vezes rabugento, outra hora fazendo pose daqueles de guarda. Seu blefador! O que ser mais além disso? Os outros bichos são também bichos; velhos blefadores rabugentos. E que tal ser filhote e dar origem a uma nova espécie de bicho, ainda não catalogado pela ciência quadrada?
Será que mando cartas para Chile? Hermanos. Ou me deixo ir pelo impulso do colonizador? Talvez um cão. Penso num bulldog, mas são tão carentes. Será âncora ou fortaleza? Talvez um gato. Um não, dois. A solidão ninguém a merece. Uma gatinha persa então. Mas esses envelopes ainda têm que chegar a alguma geografia. Cruzar o atlântico ou ter com mi hermanos? Yo solo tengo preguntas. bosta!