sábado, janeiro 28, 2006

Buffalo Soldier


O negro olhou para mim e disse que me carregaria. Era um sujeito calado. Não reclamava, mas também não poderia dizer que se tratava de homem festivo. Numa outra patrulha, em meados de dezembro, preparando minha mochila, um dos garotos se aproximou e disse que achava o negro um cara meio estranho: vê, ele parece desconfiado – sussurrou baixinho na minha direção. Eu me lembro bem disso. Em dezembro todo mundo ficava mais paranóico ainda. Não saberia lhe dizer o que de fato acontecia, mas sempre me vinha a idéia de que ninguém queria ser pego para Cristo – claro, nunca falei para ninguém sobre essa piada estúpida. O negro, no entanto, não me passava desconfiança, a impressão era mais de cautela. De qualquer forma, quando se é negro por aqui, ser desconfiado me parece um reflexo normal.

A situação estava péssima para todos. Para mim, ainda mais. Sofremos uma emboscada, mataram nosso oficial e eu havia sido seriamente ferido nas pernas. Não havia liderança. Todo mundo fazia cara de tudo-sob-controle, mas eu sentia um cheiro de desorientação no ar. Uns perguntavam aos outros qual era a idéia. Nesses momentos a gente fica ponderando sobre a melhor proposta, procurando saber se por ali vai dar para salvar a própria pele. Porém, hora acreditava-se em tudo, hora nada parecia viável. Até que um deles disse que à noite sairia por uma vereda que para muitos não daria em lugar algum.

Não falei nada. Simplesmente balancei a cabeça agradecendo. Não entendi por que aquele negro resolvera levar consigo um peso quase morto.