quarta-feira, janeiro 25, 2006

Sobre jardins

Merdas acontecem -- sem dúvida é a grande máxima de nossos tempos. Em algum momento da sua vida ela virá. Não estou falando de uma merda específica, uma merda universal, como se fosse a grande merda das escrituras sagradas. Definitivamente, não. "Merdas acontecem" é um conceito abstrato que se concretiza para cada pessoa de maneira singular. Vai desde a simples derrota num concurso qualquer até a morte de um ente querido. Talvez, o que parece pequeno -- não passar num concurso qualquer -- seja a cereja do bolo gigantesco de merda; outras vezes, esse bolo, por inteiro e de repente, implacável, com cereja e tudo, cai em nossas cabeças -- a morte de um ente querido. Tudo porém nos liquida. Nosso caixão é arriado até o fundo da cova e fica lá, apodrecendo a céu aberto, esperando ser coberto por terra, mas o coveiro não vem, não sela essa história inacabada. No entanto, penso que o inverno que conservava a merda como se fosse um fóssil pré-histórico se vai, dando lugar ao sol, que secará essa merda até torná-la adubo para um novo jardim.