quarta-feira, janeiro 25, 2006

Saudade

Levantou-se, pôs os chinelos e foi ao banheiro. Olhando-se no espelho, coçou a careca e deu uns tapinhas na cara. Voltou para o quarto andando a meio passo. Já em frente à cama de casal disse para Marta se levantar - é hora do café, mulher -, e continuou meio trêmulo indo em direção à cozinha. Colocou a água na chaleira e a pôs no fogo, sentando-se em seguida à mesa. Marta? Marta? - repetiu o nome da mulher com estranheza. Foi verificar o que havia acontecido para que sua esposa demorasse tanto a sair. Ligou a luz do quarto; a cama estava vazia. Fitou o banheiro; não havia ninguém. Marta? Marta? Marta? - repetia sôfrego em todas as direções. Pegou o telefone e discou desajeitado o número da primeira página do bloco de notas ao lado. Meu filho, meu filho, onde está sua mãe? Ela não dormiu em casa. Calma, pai, calma, pai - a voz do outro lado tentava acalmar o velho. Fez-se, então, um silêncio. Pai - disse. Sim, meu filho. A mãe foi enterrada na semana passada.